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Pesquisadores negros defendem legado antirracista de Machado de Assis

Pesquisadores negros defendem legado antirracista de Machado de Assis


Da Redação com Agência Brasil

‚ÄúMachado de Assis me ensinou como ser um homem negro‚ÄĚ. A frase √© do escritor e professor Jeferson Ten√≥rio, vencedor do Pr√™mio Jabuti de 2021 com o livro O Avesso da Pele. Dentre os muitos significados que ‚Äúnegro‚ÄĚ pode ter, o intelectual contempor√Ęneo recusou os que remetem a lugares de inferioridade. √Č de se esperar, portanto, que tenha como refer√™ncia aquele que √© considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos.

Machado de Assis nasceu h√° exatos 185 anos. Vida e obra sempre geraram debates dos mais variados, o que prova a complexidade de ambas. H√° pelo menos uma d√©cada, ganharam proemin√™ncia a afirma√ß√£o de uma identidade negra e a identifica√ß√£o de um tipo menos √≥bvio de engajamento antirracista. Para pesquisadores negros, √© fundamental manter o debate em destaque, por evidenciar quest√Ķes que ainda t√™m for√ßa no presente.

Rio de Janeiro, 18/03/2024, Trilha de Letras exibe entrevista inédita com Jeferson Tenório, autor de 'O Avesso da Pele'. Foto: TV Brasil/Divulgação
Rio de Janeiro, 18/03/2024, Trilha de Letras exibe entrevista inédita com Jeferson Tenório, autor de 'O Avesso da Pele'. Foto: TV Brasil/Divulgação

Jeferson Tenório, autor de O Avesso da Pele. Foto: TV Brasil/Divulgação РTV Brasil/Divulgação

‚ÄúCausa espanto que em 2024 a gente ainda tenha que provar que ele era um escritor negro‚ÄĚ, afirmou Jeferson Ten√≥rio,¬†durante participa√ß√£o no semin√°rio Machado de Assis e a quest√£o racial‚ÄĚ promovido pela Academia Brasileira de Letras (ABL).

At√© o momento, n√£o se conhece documento escrito pelo pr√≥prio Machado em que assuma uma determinada identidade racial. Que ele tenha sido negro √© uma premissa dos pesquisadores a partir de, pelo menos, quatro quest√Ķes: ascend√™ncia, fotografias, depoimentos de terceiros e contexto sociopol√≠tico.

A m√£e era uma mulher branca, portuguesa. O pai, descendente de escravos alforriados. Imagens dele em idade mais avan√ßada, apesar de serem em preto e branco, mostrariam tra√ßos e tons mais pr√≥ximos de uma pele negra. E relatos contempor√Ęneos refor√ßariam essa caracter√≠stica.

Ana Fl√°via Magalh√£es Pinto, historiadora e diretora do Arquivo Nacional, considera como mais emblem√°tico uma carta enviada para Machado em 1871 pelo escritor Ant√īnio C√Ęndido Gon√ßalves Crespo. O autor escreve: ‚ÄúA Vossa Excel√™ncia j√° eu conhecia de nome h√° bastante tempo. De nome e por uma secreta simpatia que para si me levou quando me disseram que era de cor como eu‚ÄĚ. N√£o se sabe se Machado teria respondido a essa quest√£o. Nenhuma carta dele para Crespo foi encontrada.

Para a historiadora, tamb√©m se destaca a maneira como Machado apoiava frequentemente outros homens negros ou ‚Äúde cor‚ÄĚ, como era mais comum chamar √† √©poca os que n√£o eram brancos. O que ela avalia como uma ‚Äúrede antirracista‚ÄĚ.

‚ÄúMachado de Assis, ao longo de sua trajet√≥ria, fez-se um grande apoiador de outros homens de cor como ele. Uma forma de desqualificar a postura de Machado em rela√ß√£o √† ascend√™ncia africana, √© justamente dizer que ele teria se afastado de suas origens, que n√£o teria se envolvido com os debates acerca dos destinos dos africanos e descendentes no Brasil‚ÄĚ, disse a historiadora em semin√°rio na ABL. ‚ÄúEncontrei Jos√© do Patroc√≠nio em seus textos agradecendo a participa√ß√£o de Machado de Assis pelas lutas abolicionistas‚ÄĚ.

Ana Flávia diz ser um mito que Machado de Assis quis se passar por branco e não se interessou pelos sentidos da liberdade e do racismo, temas que mobilizaram a sociedade à época. A forma como demonstraria esse engajamento, no entanto, não seria a mesma adota por outros nomes que ganharam protagonismo na luta, como o advogado Luís Gama. Haveria diferentes maneiras de viver a identidade negra e de defender causas abolicionistas e antirracistas.

‚ÄúEntre aparentes polos opostos, um de discri√ß√£o e outro de uma desenvoltura p√ļblica desconcertante muitas vezes, n√≥s temos uma infinidade de outras possibilidades que fazem com que tenhamos de pensar como que, num pa√≠s, com uma ampla presen√ßa de gente negra na liberdade, essas vidas se fizeram poss√≠veis‚ÄĚ, disse a historiadora. ‚ÄúN√£o era preciso esbravejar um orgulho pela origem africana, relembrar parentes presos √† escravid√£o ou ostentar uma pele em tom de azeviche para ser obrigado a lidar com os constrangimentos gerados a partir da ra√ßa.‚ÄĚ

RIO DE JANEIRO (RJ), 07/07/2023 - A diretora-geral do Arquivo Nacional, Ana Flávia Magalhães Pinto durante seminário O caso do navio escravagista Camargo, no Arquivo Nacional. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
RIO DE JANEIRO (RJ), 07/07/2023 - A diretora-geral do Arquivo Nacional, Ana Flávia Magalhães Pinto durante seminário O caso do navio escravagista Camargo, no Arquivo Nacional. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

 Ana Flávia Magalhães Pinto, historiadora e diretora do Arquivo Nacional. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil РTomaz Silva/Agência Brasil

Paulo Dutra √© professor de literatura e pesquisador de quest√Ķes raciais na obra de Machado de Assis. Ele endossa a argumenta√ß√£o da historiadora, no sentido de que a luta do escritor no s√©culo 19 se dava de outra maneira, nas entrelinhas.

‚ÄúCada um usa a sua luta da forma como pode. Nem todas as pessoas v√£o ter essa iniciativa de ir para uma luta mais aberta. A ele tem que ser dado esse direito de n√£o ter podido falar abertamente como outros falaram por v√°rias raz√Ķes. A culpa dele ter sido branqueado n√£o √© dele. √Č da sociedade brasileira, que ainda almeja um ideal europeu e branco de civiliza√ß√£o‚ÄĚ, disse o professor √† Ag√™ncia Brasil.

Jeferson Ten√≥rio refor√ßa que Machado de Assis mostra como pensar a literatura a partir de um ‚Äúdevir negro‚ÄĚ. A express√£o, segundo Ten√≥rio, parte de duas ideias. Primeiro, a recusa em aceitar os significados de ‚Äúnegro‚ÄĚ impostos por um pensamento colonial. Segundo, a aceita√ß√£o de ser ‚Äúnegro‚ÄĚ, mas sob sentidos por aqueles que foram v√≠timas da racializa√ß√£o. Para Ten√≥rio, √© na estrat√©gia discreta de apontar as origens racistas de uma sociedade injusta que Machado atua.

‚ÄúPensar o devir negro na literatura significa n√£o esquecer de onde viemos. N√£o esquecer que a nossa funda√ß√£o enquanto pa√≠s se constituiu a partir do sequestro de corpos negros, da aniquila√ß√£o de povos origin√°rios e do roubo de riquezas naturais. Assim, podemos pensar que Machado de Assis nos aponta uma literatura altamente sofisticada e que analisa com precis√£o as sutilezas da sociedade brasileira. A obra de Machado √© uma recusa categoria do que se espera de um homem negro sob a √©gide da coloniza√ß√£o‚ÄĚ, disse Ten√≥rio.

Nesse sentido, recuperar Machado a partir de identidades e lutas afrodescendentes têm impactos diretos nos processos de autoafirmação da população negra.

‚ÄúH√° pessoas que desejam ser escritoras ao ver que o nosso maior escritor era uma pessoa afrodescendente. Isso produz um impacto social‚ÄĚ, analisa Paulo Dutra. ‚ÄúEu estive em uma comunidade do Rio de Janeiro, a convite de uma biblioteca, e Machado de Assis est√° grafitado nos muros. Essa recupera√ß√£o da imagem de afrodescendente est√° levando Machado para um p√ļblico menos elitizado. Machado saiu do pov√£o e est√° voltando para o pov√£o‚ÄĚ.



Fonte: Agência Brasil
Foto: Agência Brasil